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PEDALANDO AOS ARREDORES DE COROMANDEL -MG



Recentemente, um casal de amigos me convidou para ir pedalar com eles em uma trilha na região de Coromandel, Minas Gerais. Antes da pandemia, nós reuníamos em grupos para pedalar com mais de vinte pessoas, muita animação e descontração. Atualmente, essa rotina teve que ser alterada e agora pedalamos em grupos pequenos e a trilha virou mais um momento de contemplação e de descanso da mente.


O percurso totalizou mais de 75 km com uma altimetria acumulada de 2.000 metros. A altimetria mede o quanto subimos, ou seja, ela representa a medição de planos verticais ou alturas do terreno. Para dar uma ideia para vocês do quanto representa isso, o pico mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, no Amazonas, possui 3.014 metros de altitude. É muita subida, minha gente.


O terreno em Coromandel é bem versátil, tem para todos os gostos: single tracks, subidas longas, descidas insanas, muita pedra solta, matagal fechado, muitas raízes no terreno, travessia de rios e para dar mais emoção estava um sol de rachar.

Saímos de Monte Carmelo e fomos até o bar do Geraldo Bento de carro, que marcou o ponto de início e de chegada da nossa trilha. Começamos a pedalar por volta das 7:30 da manhã. O dia estava lindo, com um céu azul e poucas nuvens. Iniciamos o pedal em uma estrada de chão batido, muita poeira, clima muito seco e com pouco vento, o que fazia aumentar a sensação térmica. Típico do cerrado mineiro nessa época do ano. No meio de tanta gramínea e pequenos arbustos encontrar alguma sombra é algo escasso. Por isso, quando passamos por debaixo de uma árvore com uma sombra, queremos aproveitar ao máximo. No outono, o cerrado fica lindo com seus campos verdes e árvores com folhagens amareladas. Também encontramos muitas árvores frutíferas. Nessa trilha, por exemplo, encontramos cacau e goiaba.



Na sequência, começamos a adentrar no cerrado mais fechado com muitas raízes, cipós, árvores menores com troncos lisos e alongados ao longo de uma margem do rio com barrancos nas laterais. Para passarmos por esses trechos tínhamos que ir nos desviando dos cipós entrelaçados entre os arbustos que passávamos com a bicicleta e abaixando a cabeça dos cipós pendurados que iam roçando no capacete. De repente, demos de cara com um pequeno riacho de água cristalina. (Como é bom achar água cristalina por aqui). Para descermos até o riacho, o barranco era altinho e tive que descer da bike e carregá-la. Ali naquela passagem, havia uma chalana com um maquinário para fazer garimpo. A chalana parecia ter sido construída de uma forma bem improvisada, uma lona preta feita de teto e toda cheia de furos sustentada por quatro bambus. Também havia ali alguns instrumentos de trabalho bem rústicos, como facas, alicates e um galão ao centro que estava ligado por canos que adentravam no canal do riacho, uma verdadeira engenhoca. Creio que não havia ninguém ali ou quando chegamos fugiu.


Resolvemos parar ali para fazer nosso lanche e ficamos refletindo sobre aquele lugar. O lugar era tão escondidinho no meio do nada e tão rico em beleza, mas mesmo assim não ficou livre das nossas agressões. Há muito tempo temos tratado a natureza como um recurso inesgotável a serviço dos nossos interesses pessoais e, infelizmente, já estamos sofrendo as consequências disso.



Após a parada e o momento de reflexão que tivemos, saímos do riacho e entramos em outra mata fechada. Nessa, já havia um caminho aberto entre os arbustos, com várias raízes no chão e com muita sombra. Muitas das vezes eu tenho o costume de pedalar com a cabeça baixa, mas o cheiro das goiabas não passou despercebido. De repente, eu sinto aquele cheirinho adocicado no meio da mata e quando eu olho para o lado, um pé de goiaba com algumas frutas maduras. Era um pé de goiaba amarela, eu comi uma que estava incrivelmente boa, mas meus amigos disseram que a deles estava premiada com o bichinho da goiaba. Quem aí também concorda que o goiaba sem bichinho não é goiaba? (hahahah)

Depois da parada no pé de goiaba, entramos em mais single tracks, só que agora esses eram bem íngremes e cheios de pedras soltas. Foi bem legal fazer eles. Quando acabamos esse trecho fomos direto para a cachoeira do Santuário. Ainda estávamos há uns 3 quilômetros da cachoeira e começamos a avistar a sua cabeceira com as três quedas d'água. Para chegarmos até a cachoeira temos que fazer uma descida bem íngreme, um caminho estreito e cheio de pedras soltas e raízes. Por isso, optamos por deixar a bicicleta no topo e descemos a pé até lá. O trilho, em que pese as dificuldades no acesso, é lindo. Vamos chegando até os pés da cachoeira entre a mata bem fechada, o que nos dá uma sensação muito boa de contato com a natureza.



Quando chegamos na área aberta da cachoeira havia muitas pessoas reunidas fazendo convívios. Estamos passando por um momento muito grave na pandemia e esse tipo de aglomeração ainda está proibido.

A situação me fez pensar sobre várias questões éticas. Estamos pedalando ao ar livre e apenas em três pessoas. Não paramos em nenhum lugar, exceto para comprar água em um bar. A necessidade de ficar em alerta, mesmo no meio do mato, é muito estranha. Estamos pedalando ao ar livre, mas ainda sim aquela sensação de medo e o dever de evitar o contato com o próximo permanece, o que deixa a trilha uma sensação completamente nova.


Após admirarmos rapidamente o lugar e tirarmos algumas fotos, logo voltamos a subir o trilho. Fizemos o caminho da volta e a sapatilha escorregava tanto que eu preferi tirá-las e ficar descalça, só que na metade do caminho as pedras começaram a machucar meus pés e eu tive que voltar a colocá-las novamente. Essa parte foi difícil na trilha, pois as sapatilhas escorregam muito e descalça as pedras machucavam, demorei bastante pra terminar de subir o trecho.


Saímos dali e mais single track e subidas, o caminho impressiona com a semelhança da Serra da Canastra, os morros com uns sulcos esculpidos e um verde que impressiona. Parece uma pintura de tão rica em detalhes que é. Passamos por um trecho tão lindinho, que fiquei admirada com a sutileza do lugar. O rio fica bem ao centro de um lugar rodeado por árvores. Ao centro, o rio cercado por dois esbarrancados cobertos por grama. Era por volta das 14 horas quando passamos por ali, então estava bem quente, entrar naquele lugar me trouxe uma sensação muito boa. O clima ficou úmido e com um ventinho bem refrescante. A natureza nos dá tudo o que precisamos, temos que confiar mais nela.


Após esse momento de refrescância que serviu para recarregar um pouco das nossas energias, começaram as longas subidas. Pegamos uma última subida com a distância de 3,5 km. Depois dessa subida eu senti vontade de chorar e chorei. As minhas coxas já estavam queimadas e eu já estava bem cansada, além de que havia meses que eu não pedalava o que contribuia para o esgotamento. Por muitas vezes me veio uma sensação de que eu precisava desistir de pedalar, que aquilo era loucura, nós já estávamos ali há mais de 6 horas pedalando debaixo do sol quente, com uma dor horrível no antebraço. Essa dor no antebraço começou a piorar muito, pois toda hora eu tinha que estar segurando firme o guidão contra as pancadas das pedras soltas, controlando a bike nos cascalhos soltos, desviando das valas e na parte que era para ser mais de boa, a estrada de terra, estava cheia das famosas “costelas de vaca”, umas ondulações na estrada, que causam trepidação demais no guidão.


Eis que chega a pior subida que estávamos esperando, com mais de 3km de extensão. Eu nem penso muito na subida, evito olhar para o topo, só continuo. Quem aí já assistiu o filme “ Procurando Nemo” deve lembrar de uma parte em que a Dori fica cantando: “Continue a nadar, continue a nadar”, eu sempre fico com essa frase na minha cabeça e imagino a Dori cantando “Continue a pedalar, continue a pedalar” hahahahahah. Se utilizarem alguma vez e der certo para vocês me contem aqui.

Para finalizar, o que não pode faltar em uma subida no Brasil? Cachorros correndo atrás de você, claro. E lá apareceram eles contribuíndo para a melhora da minha passada. Finalmente, depois de passar por mais essa aventura, já estavamos próximos ao fim da trilha. Foi um alívio chegamos de volta ao bar do Geraldo Bento.


Conforme mais ou menos o planejado, chegamos por volta das 17:30 e a natureza mais uma vez nos presenteou com um contraste lindo entre o pôr-do-sol e o nascer da lua cheia. O céu estava com um tom de rosa claro e a lua estava gigante. Foi assim que concluímos mais esse pedal, com muitas paisagens lindas para recordar e uma sensação de energias carregadas.


A sensação de paz que a natureza me passa é uma das coisas que mais me inspira a pedalar. Naquele momento que eu senti muita vontade de desistir, uma coisa que me ajudou muito a ignorar aquela sensação de dor e cansaço que já estavam quase me dominando foi observar as paisagens da natureza ao meu redor, os verdes dos morros e concentrar no canto dos pássaros.


Espero que tenha gostado da leitura e se quiser deixe aqui nos comentários quais as técnicas que você usou para não desistir em uma subida ?



Se curtiu essa experiência não deixe de deixar seu cometário e se quiser saber mais sobre minhas experiências pedalando me acompanhem pelo instagram @thalitagomesb !


Muito Obrigada e ótimas pedaladas!


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